
A Herdeira e o Capataz
Capítulo Um
O trem parou em Barra Mansa às quatro da tarde, e o homem que esperava na plataforma não tirou o chapéu.
Emília desceu com a mala de couro na mão e o luto ainda cheirando a naftalina. Ela reparou primeiro nas botas dele, que estavam limpas e velhas, e depois no fato de que ele não veio ajudar com a mala.
"Dona Emília."
"O senhor é o Aparício."
"Sou."
"Meu pai escrevia sobre o senhor nas cartas." Ela passou a mala para a mão esquerda. "Dizia que o senhor era o único que entendia o cafezal."
"Seu pai escrevia bonito." Ele pegou a mala então, sem pedir licença. "A carroça está na sombra. São duas horas até a sede e vai chover antes."
Choveu antes. Aparício parou debaixo de uma figueira e cobriu a mala com a capa de lona, e ficou de pé, molhando, enquanto ela ficava sentada e seca. Emília olhou aquilo por dois minutos e desceu para o barro com o sapato de cidade.
"Suba", ela disse.
"Não fica bem."
"Não fica bem eu chegar seca e o senhor com febre."
Ele subiu. Ficaram os dois debaixo da capa, com meio palmo de distância e o cheiro de terra molhada em volta, e nenhum dos dois disse nada até a chuva passar.
A sede da fazenda tinha quinze janelas, e quatro estavam com tábua no lugar do vidro. O terreiro estava rachado. No barracão dos colonos italianos, uma mulher cantava alguma coisa em dialeto enquanto batia roupa.
"Quantos ficaram?", perguntou Emília.
"Nove famílias. Eram vinte e três em noventa e oito."
"E o café?"
Aparício apontou com o queixo para a encosta, onde o cafezal descia em fileiras e sumia numa área escura.
"Aquilo lá em baixo é broca e é ferrugem. Aquilo do meio dá, se tiver braço na colheita. E aquilo de cima é mato desde que seu pai adoeceu."
Ela ficou olhando a encosta até o sol descer atrás dela.
"O senhor vai ter que me ensinar tudo", ela disse.
"A senhora é dona disso."
"Eu sou dona de uma coisa que eu não sei fazer. Isso não é ser dona, é ser enfeite."
Capítulo Dois
Ela aprendeu depressa, e ele reparou.
Em três semanas Emília sabia distinguir o grão chocho do grão bom com a mão fechada. Em dois meses ela discutia peso de saca com o comprador de Vassouras e ganhava, porque tinha estudado contabilidade no colégio das irmãs em São Paulo e o comprador não contava com isso.
Aparício acordava às quatro e a encontrava às quatro e vinte no terreiro, com um caderno.
"A senhora dorme?"
"Durmo em julho."
Ele riu uma vez, curto, e virou de costas para que ela não visse. Foi a primeira vez.
A mãe dele morava na casa de tábua ao lado do paiol e chamava-se Josefa. Tinha sido nascida cativa naquela mesma terra, e ficou depois de maio de oitenta e oito porque, segundo ela mesma dizia, não ia entregar o cemitério da família para ninguém tomar conta.
"A senhorita quer café ou quer conversa?", perguntou Josefa, na primeira vez que Emília bateu na porta dela.
"As duas."
"Então senta que conversa é demorada."
Emília sentou no banco de tamborete e ouviu por duas horas o que ninguém tinha escrito em livro nenhum: quem plantou cada quadra, em que ano a água do córrego mudou de curso, qual encosta o pai dela tinha comprado por preço de esmola de uma viúva sem herdeiro.
Quando saiu, já era noite, e Aparício estava encostado no batente do paiol com uma lamparina.
"Minha mãe falou demais."
"Sua mãe falou o que eu precisava."
"A senhora sabe que se o Coronel Braga vier aqui e vir a senhora sentada na casa dela, ele vai comentar na cidade."
"Que comente."
"A senhora diz isso porque ainda não conhece o Coronel Braga."
Capítulo Três
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Braga apareceu em setembro, com dois capangas e um cavalo bom demais para a estrada.
Era um homem de sessenta anos, com anel no mindinho e uma voz que ele fazia questão de deixar suave. Sentou na varanda, pediu água, e pôs os papéis na mesa antes de beber.
"Seu pai tomou de mim quarenta contos em três vezes, minha filha. O último vencimento foi em junho passado."
"Eu sei o valor."
"Eu não vim tomar sua terra." Ele empurrou o copo. "Eu vim resolver de um jeito que ninguém precise falar em leilão. A senhorita é moça, é bonita, tem instrução. Eu sou viúvo há nove anos."
Emília manteve as mãos abertas em cima do vestido, porque punho fechado se vê.
"O senhor está me propondo casamento como forma de pagamento."
"Eu estou lhe propondo casamento como forma de decência." Ele sorriu. "Uma moça sozinha numa fazenda com noventa homens é assunto para a cidade inteira. E eu ouço coisas, sabe. Ouço que a senhorita anda a cavalo com o capataz e senta na casa da mãe dele."
O silêncio na varanda ficou muito comprido.
"O senhor ouve muito bem para quem mora a seis léguas."
"Eu ouço porque me interessa." Braga levantou e pôs o chapéu. "Dou até o fim da colheita. Depois disso eu executo, e a senhorita volta para São Paulo com uma mala e um sobrenome estragado."
Naquela noite, Aparício encontrou Emília no terreiro, às onze, sentada no degrau de pedra com o cabelo solto pela primeira vez desde que chegou.
"A senhora vai aceitar."
"Sente-se."
"Não fica bem."
"Aparício." Ela levantou os olhos. "Se o senhor me disser mais uma vez o que fica bem, eu jogo essa lamparina no seu pé."
Ele sentou, no degrau de baixo, a dois palmos.
"Se eu aceitar, ele paga o vencimento e a terra fica", ela disse. "Se eu não aceitar, em maio isso aqui é dele do mesmo jeito, e as nove famílias vão embora para o Espírito Santo. Foi essa a conta que eu fiz cinco vezes hoje."
"E qual foi o resultado?"
"O mesmo cinco vezes." Ela apertou o xale. "E cinco vezes eu não consegui dizer sim em voz alta."
Ele olhou para as mãos, que estavam abertas nos joelhos.
"Por quê?"
"O senhor sabe por quê."
"Eu não sei nada", ele disse, e a voz saiu rouca. "Eu sou capataz. Eu sei que tem uma coisa nesta casa desde julho que eu não posso nomear, porque no dia em que eu nomear, eu perco o serviço, minha mãe perde a casa, e a senhora perde o nome. Eu faço essa conta todo dia às quatro da manhã, dona Emília. Eu faço essa conta melhor que a senhora."
Ela desceu do degrau para o dele, e ficou de frente, muito perto, com a lamparina no chão entre os dois pés.
"Diga o meu nome sem o dona."
"Não."
"Uma vez."
"Emília."
Ela pôs as duas mãos no rosto dele e não fez mais nada, ficou só assim, esperando, e foi ele quem fechou a distância. O beijo foi lento e sem nenhum susto, como coisa combinada há muito tempo por baixo de outras conversas. As mãos dele ficaram na cintura dela e não subiram nem desceram.
"Eu quero", ela disse. "Precisa estar dito. Eu quero, e ninguém está me obrigando a nada, nem hoje nem nunca."
Ele apagou a lamparina com a mão.
Capítulo Quatro
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Prenderam Aparício num sábado de outubro.
A acusação foi de furto de trinta arrobas de café do armazém de Braga, com testemunha de dois homens que ninguém do vale tinha visto antes daquela semana. Levaram a cavalo, com as mãos amarradas na frente, e Josefa correu atrás até a porteira grande antes de cair de joelhos no barro.
Emília chegou à cadeia de Vassouras na segunda-feira, com o vestido preto e a certidão da fazenda debaixo do braço.
O delegado não deixou ela entrar na cela. Deixou falar pela grade do corredor.
Ele estava com o olho direito fechado de inchaço e a boca partida no canto. Levantou quando ouviu o passo dela, e a primeira coisa que fez foi virar o rosto para o lado.
"Não olhe."
"Já olhei."
"Volte para a fazenda."
"Aparício."
"Volte para a fazenda, faça a colheita, case com aquele homem e viva." Ele pôs a mão na grade. "Eu pego dois anos. Sou preto e sou capataz e o queixoso é coronel, então eu pego dois anos e é barato. Se a senhora vier aqui outra vez, ele vai fazer pior comigo e vai fazer pior com a minha mãe, e a senhora vai ter que carregar isso."
"O senhor está me pedindo para agradecer o meu próprio enterro."
"Estou pedindo que a senhora viva." A voz dele quebrou na última palavra, e ele apertou a grade até os dedos ficarem sem cor. "Eu vou pensar na senhora todo dia dos dois anos. Isso eu não consigo evitar. Mas não me faça pensar na senhora morrendo aos poucos naquela casa."
Emília ficou parada no corredor de terra batida.
"Não", ela disse.
"Emília."
"Eu disse não." Ela deu um passo para trás. "O senhor decidiu por mim, e eu já tive um pai."
Capítulo Cinco
Ela não casou com o Coronel Braga.
Vendeu a fazenda em três lotes, com escritura feita em Vassouras por um tabelião que era inimigo de Braga desde uma eleição de noventa e cinco. O lote grande foi para uma companhia de café de Santos que pagou em dinheiro. Os dois lotes pequenos, os da encosta de cima que ninguém queria, ela vendeu por preço simbólico às nove famílias, com pagamento em dez anos, em papel passado.
Com o que sobrou, pagou os quarenta contos, contratou um advogado do Rio, e comprou três depoimentos que desmontaram os dois homens que ninguém nunca tinha visto.
Aparício saiu em fevereiro, depois de quatro meses e onze dias.
Ele atravessou o portão da cadeia magro, com a barba por fazer, e ela estava do outro lado da rua com um chapéu que não protegia de nada e uma carroça que não era da fazenda.
"A senhora vendeu tudo", ele disse.
"Vendi."
"Por minha causa."
"Por minha causa." Ela pôs a mão no braço dele, na frente da rua inteira, sem se importar com uma única janela. "Eu ia perder aquilo em maio de qualquer jeito. A diferença é que assim eu escolhi a quem entregar."
"E a sua mãe? O seu nome?"
"Minha mãe morreu em noventa e sete e o meu nome está em três escrituras." Ela subiu na carroça e estendeu a mão. "Sua mãe está em Santos, na casa da minha prima, e está reclamando do vento desde terça-feira."
Ele ficou parado na calçada.
"Eu não tenho nada para lhe dar."
"O senhor sabe qual é o grão chocho de olho fechado e sabe ler encosta." Ela sacudiu a mão estendida. "Em Santos tem armazém de café até no sonho de todo mundo. Suba, Aparício. Vai chover antes."
Sobre esta história
O que aconteceu com o Coronel Braga depois da venda?
Perdeu o processo, perdeu as custas e perdeu a mão de dois delegados que passaram a evitá-lo depois que o advogado do Rio mexeu no assunto na capital. Continuou coronel, continuou rico e morreu em mil novecentos e onze na própria varanda. Nunca pagou por nada do que fez, o que é a parte da história que não tem conserto.
As nove famílias italianas conseguiram pagar os dez anos?
Sete conseguiram. Duas venderam a parte delas em mil novecentos e sete para uma vizinha e foram para São Paulo trabalhar em tecelagem. As sete que ficaram plantaram menos café e mais milho e feijão, que era o que dava para comer, e a encosta de cima virou pasto pequeno em vinte anos.
Josefa aceitou bem sair da terra onde estava o cemitério da família dela?
Não aceitou. Brigou por três dias e só entrou na carroça quando Emília mandou levantar uma cerca de pedra em volta das sepulturas e pôs isso em cláusula na escritura do lote grande. A cláusula foi cumprida por dezoito anos. Josefa morreu em Santos em mil novecentos e nove, e o corpo dela subiu a serra de trem.
Eles puderam viver juntos abertamente em Santos?
Em parte. Alugaram casas separadas na mesma rua do Macuco por três anos, por causa dos vizinhos, e viviam na mesma. Em mil novecentos e seis pararam de fingir, e perderam com isso duas amizades e um contrato de armazém. Ninguém no cais se importou depois do primeiro ano, porque o café pesava mais do que a fofoca.
Emília se arrependeu de ter vendido a fazenda?
Sentiu falta do terreiro às quatro da manhã pelo resto da vida, e disse isso em voz alta uma única vez, numa noite de chuva em Santos. Da terra em si, não. Ela costumava dizer que herdar uma coisa não é o mesmo que querer aquela coisa, e que levou vinte e quatro anos e um homem preso para entender a diferença.


