
A Última Chamada do Voo 214
Capítulo Um
O aviso ecoou pela terceira vez, uma voz metálica que parecia vir de todos os alto-falantes ao mesmo tempo. O voo 214 para Porto Alegre estava cancelado. A multidão rangeu, um som de muitas pessoas frustradas, e Marina sentiu o cotovelo de alguém fincar suas costelas enquanto tentava se afastar do balcão da Gol.
Ela apertou o celular contra o peito, a tela escura. A última mensagem de Eduardo estava ali, lida há duas horas, e ela ainda não tinha respondido. "Precisamos conversar quando você chegar." Conversar era a palavra que ele usava para tudo que não queria dizer.
Dois metros à frente, um homem com uma mochila verde militar largou o corpo contra a coluna de sustentação e passou a mão pelos cabelos. Não era impaciência. Era um cansaço tão fundo que parecia físico. Marina notou a aliança no dedo anelar dele, o brilho opaco.
"Quanto tempo?", perguntou ele, sem olhar para ninguém em particular.
Marina achou que ele falava sozinho. Quando seus olhos encontraram os dela, ele repetiu.
"Quanto tempo até liberarem alguma coisa? Você parece saber."
"Pelo visto ninguém sabe", respondeu ela. "O aeroporto inteiro está no escuro. Não só o voo."
O homem riu, uma coisa baixa e sem humor. "Acho que é disso que eu preciso. No escuro."
Ele estendeu a mão. "Rafael."
"Marina." Aperto rápido, a palma dele quente. A aliança era simples, uma argola dourada fina, e ela desviou os olhos.
Ele se apresentou como se estivesse cumprindo uma formalidade, mas não soltou a mão no mesmo segundo em que apertou. Havia um atraso, uma hesitação, como se ele tentasse lembrar como se fazia aquilo.
"Tem onde ficar?", perguntou ela, porque o silêncio entre eles estava se tornando pesado e era melhor preenchê-lo com qualquer coisa.
"Vou dormir na cadeira. Mas preciso de café antes. Café com açúcar, três. Não dá para fazer escolhas ruins num dia desses."
Ela apontou com o queixo. "A lanchonete do fim do corredor ainda está aberta. A fila vai demorar, mas pelo menos o café é quente."
Ele empurrou o corpo da coluna. "Vai comigo?"
Não era um convite, exatamente. Soava mais como um pedido de desculpas adiantado, como se ele soubesse que ia ser um péssimo companheiro de fila, e quisesse avisar.
Marina seguiu. Não tinha mais nada para fazer até o próximo comunicado. Eduardo não ia ligar, ele sempre esperava que ela ligasse, e ela não ia ligar primeiro, não depois do que ele tinha escrito. Conversar. A palavra rodou na cabeça dela como um mosquito.
Capítulo Dois
A fila não andava. O homem na frente deles, um senhor de camisa xadrez, reclamava para o telefone sobre o sobrinho que devia ter buscado uma pizza. Ninguém prestava atenção. O ar-condicionado soprava gelado nas costas de Marina, mas ela já não sentia mais.
"Porto Alegre?", perguntou Rafael.
Ela assentiu. "Você também?"
"Sim. Mas não vou ficar. Só estou de passagem. Tenho um compromisso lá."
A maneira como ele disse compromisso fez Marina erguer uma sobrancelha. A palavra saiu engolhada, como se ele tivesse cuspido uma bala.
"Família?", arriscou ela.
"Esposa." A sílaba foi curta, um estalo. Rafael ajeitou a mochila no ombro. "A gente ia se encontrar. Faz três meses. Ela pediu para eu ir até lá."
Marina sabia que devia parar. Que não devia perguntar mais nada. Mas a fila não andava e o cancelamento do voo era um território neutro, um lugar onde as regras normais pareciam suspensas.
"Três meses?", disse ela.
"Três meses desde que eu saí de casa. Ela ficou. Foi melhor assim."
Foi melhor assim. Marina reconheceu a frase. Era o que ela dizia para si mesma quando Eduardo dormia de costas, o corpo virado para a parede. Ela não perguntou mais nada. Mas Rafael continuou.
"Ela quer que eu volte. Diz que as coisas mudaram. Que ela mudou."
"E você?"
Ele pegou o café que o atendente empurrou pelo balcão e tomou um gole, uma careta. "Eu não sei se quero descobrir."
A fila andou um metro. Marina comprou um pão de queijo e um suco. Quando voltou com o troco, Rafael tinha encontrado uma mesa no canto, perto de uma janela embaçada onde a chuva batia sem parar.
"Pode sentar?"
Ela sentou. O suco estava gelado, e ela segurou o copo com as duas mãos, aquecendo os dedos contra o plástico.
"Por que você está indo?", perguntou Rafael. "Se não quiser responder, não responde."
Ela pensou em Eduardo. Na mesa de jantar com os talheres alinhados, na pasta de documentos que ele tinha deixado sobre a cama deles, no último parágrafo de um e-mail que ela abriu por engano. "Precisamos conversar" era um aviso. Mas ela também precisava ver.
"Meu casamento", disse Marina. "Está acabando. Eu acho. Ou já acabou. E eu vou pra Porto Alegre porque é lá que a minha vida inteira está."
"É uma cidade grande", disse Rafael. "Dá pra se perder."
"Eu não quero me perder. Eu só não quero mais ser encontrada."
Ele olhou para ela, e o olhar dele tinha um peso que não cabia naquele aeroporto pequeno, na mesa de plástico branco. Marina desviou os olhos. A chuva escorria em veios pela janela, e o vidro embaçado distorcia a luz laranja das pistas lá fora.
"O aeroporto vai fechar", disse alguém no alto-falante. "Não há previsão de abertura."
Capítulo Três
Photo by Rodolfo Gaion via Pexels
A noite caiu e as cadeiras do aeroporto se transformaram em camas improvisadas. Marina viu uma mulher cobrir duas crianças com um casaco, e um homem de terno sentado no chão, de costas para a parede, os olhos abertos no escuro. A energia do lugar tinha mudado. Não era mais raiva. Era uma aceitação lenta e cansada.
Rafael apareceu com dois cobertores de lã fina que ele tinha arrancado de alguma funcionária da companhia. Estendeu um para Marina.
"Peguei. Não pergunte como."
"Você é bom nisso."
"Em ser inconveniente", disse ele, sentando no chão ao lado dela. A cadeira estava ocupada pela mochila. "É o meu talento."
Ela riu, uma risada pequena, e Rafael sorriu. Foi a primeira vez que ele sorriu de verdade, sem o amargo que ele carregava, e Marina viu que o sorriso dele era diferente. Alterava o mapa do rosto.
"Você está com fome?", perguntou ele. "Tenho uma barra de cereal. É velha, mas é comida."
"Divide?"
Ele partiu a barra ao meio e entregou a maior parte para ela. Marina comeu em pedaços pequenos, mastigando devagar. A lanchonete tinha fechado, e o único som era a chuva no teto metálico do aeroporto, um tamborilar constante.
"Você acha que a gente deveria se conhecer?", perguntou Rafael, a voz baixa.
"Como assim?"
"Tipo, se você pudesse me perguntar qualquer coisa, sem consequências. Uma noite de aeroporto. Nunca mais me vê."
Marina pensou. "Tudo bem", disse. "Eu vou. Você tem medo de voltar para sua esposa porque?"
Rafael passou a mão pelo rosto. "Porque eu ainda amo ela. E sei que isso não vai ser suficiente."
"O que mais seria?"
"Eu fui embora, Marina. Eu saí depois que ela perdeu a gravidez. Ela me pediu um tempo, e eu fui. Não voltei. Não liguei. E ela me deixou ir."
O silêncio entre eles era a coisa mais pesada que Marina tinha ouvido em meses. Mais pesada do que o "precisamos conversar" de Eduardo, mais pesada do que o silêncio no banco de trás do carro quando eles voltavam de uma viagem.
"Eu não perguntei a ela como ela estava", continuou Rafael. "Não perguntei se ela queria que eu ficasse. Eu simplesmente fui."
"Às vezes a gente vai", disse Marina. "Não tem explicação."
"Tem. A gente tem medo."
O cobertor escorregou dos ombros de Marina. Rafael estendeu a mão e puxou a ponta de volta, os dedos roçando o pescoço dela por um segundo. O toque foi breve, mas o calor ficou. Ela não se afastou.
"E você?", perguntou ele. "O que está esperando encontrar em Porto Alegre?"
Marina apoiou a cabeça na parede, olhando para o teto. "Eu não sei. A verdade, talvez. Eduardo disse que precisamos conversar. É sempre assim. Ele guarda, eu espero, e depois a conversa nunca vem."
"E você?"
"Eu não guardo. Eu sei o que eu quero dizer. Mas não tenho coragem."
"O que você quer dizer?"
Marina fechou os olhos. "Que eu quero que ele me veja. De verdade. Que a gente pare de fingir que está tudo bem quando não está. Mas eu não posso dizer isso porque se ele me olhar e não gostar do que vê, não sobra nada."
Rafael ficou em silêncio por um longo momento. Depois deslocou o corpo para ficar mais perto, o ombro dele tocando o ombro dela. A aliança brilhou na luz fraca do corredor.
"Se ele não gostar", disse Rafael, "sobra você."
Ela não respondeu. Mas não se afastou.
Capítulo Quatro
Photo by Rodolfo Gaion via Pexels
A madrugada foi um fio longo e esticado. Eles trocaram histórias em sussurros, como se estivessem num confessionário. Marina contou que conheceu Eduardo no último ano da faculdade, que ele tinha um jeito de desenhar mapas no guardanapo quando queria explicar um lugar para ela. Contou que ele não desenhava mais. Que os guardanapos estavam limpos.
Rafael falou sobre a esposa. Clara. O nome saiu pela primeira vez, e ele demorou na pronúncia. Falou do cheiro do cabelo dela, um shampoo de coco que ele odiava, que agora ele sentia em qualquer lugar, em qualquer mulher que passava, e isso o fazia voltar no tempo.
"Você pode não estar apaixonado por ela", disse Marina. "Você pode estar apaixonado por uma versão dela que não existe mais."
"Eu sei. Mas e se essa versão existir? E se eu tiver ido embora antes de descobrir?"
"Então você vai descobrir amanhã."
"Se o voo sair."
Marina riu. Foi a primeira risada verdadeira da noite, e o som ecoou no saguão vazio. Rafael a olhou com uma expressão que ela não soube nomear.
"Você é bonita quando ri", disse ele.
"Você não devia dizer isso."
"Eu sei. Mas eu não ligo para o que eu devia e não devia."
Ela sentiu a mão dele encontrar a dela, os dedos se entrelaçando no escuro. O toque era leve, uma pergunta silenciosa. Marina apertou a mão dele. Era um sim.
"Você está tremendo", disse ele.
"É o frio."
"Você mente mal."
Ela virou o corpo para encará-lo. No escuro do aeroporto, os olhos dele eram dois pontos de luz. "E você?", perguntou. "Você mente melhor?"
"Sim. Já tive muito treino."
"Então me diz uma verdade."
Rafael inclinou a cabeça. A distância entre eles era de alguns centímetros. "Eu não quero que o voo saia", disse ele. "Eu não quero chegar. Porque se eu chegar, eu vou ter que decidir. E se eu decidir, vou ter que viver com isso."
"E eu", disse Marina, "não quero voltar para casa. Porque eu sei que Eduardo vai terminar o que ele começou, e eu não sei se tenho força para aguentar."
Os lábios dela encontraram os dele antes que ela pudesse pensar. O beijo foi macio e incerto, e depois mais fundo. Rafael colocou a mão no rosto dela, a palma áspera, e ela sentiu a aliança encostar na sua bochecha.
"Para", disse ela, afastando o rosto. "A aliança."
Ele olhou para a mão. Puxou o anel com um movimento seco e colocou no bolso da calça.
"Agora? Você acha que isso resolve?"
"Resolve o fato de que você está beijando uma mulher casada", disse ele. "Mas não resolve que você está aqui, comigo, e que eu não quero que você vá."
Ela encostou a testa na dele. O coração batia tão alto que ela tinha certeza de que ele sentia.
"Não somos pessoas boas", sussurrou ela.
"Somos pessoas", disse ele. "Só isso."
O aeroporto tinha esquecido de iluminar o canto onde eles estavam. Ninguém olhava. A chuva continuava.
Capítulo Cinco
A primeira luz do dia entrou pelas janelas altas como um cinza sujo. A chuva tinha parado, mas o céu continuava carregado. O alto-falante estalou, e uma voz anunciou que os voos começariam a ser remanejados. O voo 214 tinha previsão de embarque para o meio-dia.
Marina acordou com o ombro de Rafael servindo de travesseiro. O corpo dele estava quente, e ela sentiu o braço dele envolto nas costas dela. Por um segundo, ela se permitiu não saber onde estava, quem era, o que tinha feito.
Depois lembrou.
Rafael abriu os olhos ao mesmo tempo. Não se mexeu. A mão dele ainda descansava na curva da cintura dela.
"Meio-dia", disse ela.
"Sei."
Ela sentou-se devagar, o cobertor caindo. A aliança de Rafael estava no bolso dele, mas ela podia ver a marca pálida no dedo. Ele seguiu o olhar dela.
"Não coloquei de volta", disse ele.
"É o seu casamento, Rafael. Não a aliança."
"Você tem razão." Ele se levantou e estendeu a mão para ajudá-la. "Mas eu preciso decidir."
Ela pegou a mão. O aperto era firme. "E eu também."
O saguão já estava cheio de novo. A multidão organizada em filas, os olhos cansados, o desejo de ir para algum lugar. Marina e Rafael ficaram de pé perto da janela. O sol aparecia entre as nuvens.
"Você vai encontrar ele?", perguntou Rafael.
"Sim. Vou terminar. Não vou esperar ele terminar por mim."
Ele assentiu. "E eu vou encontrar a Clara. Vou perguntar como ela está. Dessa vez vou ouvir."
"E se ela não quiser?"
"Então eu vou embora de novo. Mas dessa vez vou saber o motivo."
Marina tocou o rosto dele. Os dedos deslizaram pela mandíbula, pela barba por fazer. O toque era um adeus.
"Você não vai me ligar", disse ela.
"Não posso. Você também não pode."
"Eu sei."
O embarque começou. O voo 214 foi chamado. As pessoas se moveram como uma corrente lenta em direção ao portão. Marina pegou a mochila. Rafael pegou a dele.
"Foi um presente", disse ele, "esse aeroporto."
"O pior presente do mundo."
"O melhor."
Eles se beijaram uma última vez, rápido, como um selo num envelope. Depois Rafael virou e entrou na fila. Marina ficou parada, vendo a mochila verde sumir entre as pessoas.
A voz do alto-falante chamou o grupo dela. Ela deu um passo. Outro. O portão estava aberto, e a luz do sol entrava em fios retos pela passarela.
Marina entrou no avião. Sentou no corredor, o cinto travado. Ao lado, a janela. Lá fora, o aeroporto se afastava. Ela pensou na mão de Rafael na dela, no beijo no escuro, em tudo que não ia acontecer.
O avião decolou. O chão sumiu.
Ela não chorou. Ela guardou.
Sobre esta história
Rafael realmente foi encontrar Clara, ou disse isso para não se despedir?
Ele foi. No portão de embarque, ele viu Marina entrar na fila e ficou parado. Não queria carregar o peso de uma promessa mentirosa. Encontrar Clara era o menor dos dois males, e ele sabia que, depois daquela noite, era a única coisa honesta que podia fazer.
Por que Marina não respondeu a mensagem de Eduardo antes do voo?
Ela sabia que, se respondesse, não iria. A mensagem era o fim, e ela já tinha lido o final várias vezes. Escrever de volta seria aceitar que acabou antes de chegar lá, e ela precisava ver o rosto dele quando ouvisse o que ela tinha para dizer. O silêncio era um escudo.
O que aconteceu com o anel de Rafael?
Ele guardou no bolso da calça e só lembrou dele quando já estava sentado no avião, o cinto travado. Durante todo o voo, ficou passando o polegar na marca deixada no dedo. Quando pousou, colocou o anel no bolso da mochila, no fundo, e foi encontrar Clara sem ele.


