A happy couple enjoying the panoramic view of Rio de Janeiro's iconic skyline.
Romance Contemporâneo

A Aliança Emprestada

Magalhães Raul8 min de leitura5 DE SET. DE 2026

Capítulo Um

O gato tinha setenta e dois minutos de anestesia e nenhuma intenção de acordar no horário. Cíntia estava com o dedo no pulso femoral do bicho quando decidiu que ia pedir.

"Élio."

"Hum."

"Você faz alguma coisa entre quinta e domingo?"

O anestesista ajustou o fluxo do vaporizador sem olhar para ela. "Durmo."

"Além de dormir."

"Como. Às vezes leio." Ele conferiu o monitor. "Porque perguntas?"

Cíntia tirou o dedo do pulso do gato e passou o antebraço na testa, por cima da touca. "Preciso de um namorado por quatro dias."

O silêncio na sala cirúrgica foi só o barulho do aparelho. Élio levantou a cabeça devagar, e ela viu os olhos dele acima da máscara, que eram claros e completamente sem pressa.

"Repete lá."

"Minha irmã casa sábado em Petrópolis. Em dezembro, no Natal, na frente da minha mãe, da minha tia Vilma e de doze pessoas comendo lentilha, eu disse que estava namorando." Ela falou rápido, como quem tira esparadrapo. "Não estava. Não estou. Mas eu disse, e minha mãe passou sete meses perguntando o nome, e eu inventei um nome, e o nome que eu inventei foi Élio."

Ele piscou uma vez. "O meu nome."

"Foi o primeiro que me veio."

"Trabalhamos juntos há cinco meses."

"Eu sei."

"E o teu subconsciente escolheu-me a mim."

"Meu subconsciente é um problema meu." Ela tirou as luvas com um estalo. "Quatro dias. Pousada paga, comida boa, você fica calado a maior parte do tempo, que é sua especialidade, e no domingo a gente volta e nunca mais fala nisso."

Élio olhou para o gato, que começava a mexer as orelhas.

"Ele está a acordar", disse ele.

"Eu vi."

"Eu vou."

Ela ficou com a luva pendurada na mão. "Assim, sem negociar?"

"Sem negociar." Ele desligou o vaporizador. "Mas eu não minto sobre mim. Se me perguntarem uma coisa minha, respondo a verdade. O que é da tua conta, tratas tu."

Capítulo Dois

A pousada em Itaipava tinha lareira em todo quarto e uma dona que chamava todo mundo de anjo. Cíntia parou no balcão com a mala numa mão e a bolsa térmica de vacinas na outra, porque nunca viajava sem, e ouviu a frase que já esperava.

"Reservei o casal, anjo. Sua mãe pediu."

Élio pegou a chave antes que ela respondesse.

O quarto tinha uma cama, uma poltrona e uma janela com hortênsia do lado de fora. Ele largou a mochila no chão e mediu a poltrona com os olhos.

"Dá para dormir?", perguntou ela.

"Dá para sentar." Ele tirou o casaco. "Eu durmo no chão, tenho um saco de dormir no carro."

"Você viaja com saco de dormir?"

"Eu subo montanha."

"Claro que sobe." Ela sentou na beira da cama. "Deixa eu te passar as informações antes do jantar. Minha mãe chama-se Lourdes, é professora aposentada, pergunta tudo duas vezes. Minha irmã é a Bia, é a boa. O noivo é o Ceará, que se chama Marcelo mas ninguém chama. E o padrinho do noivo é o Túlio."

"E o Túlio é o quê?"

Ela olhou para a hortênsia. "O Túlio é sete anos da minha vida."

Élio sentou na poltrona, de frente para ela, com os cotovelos nos joelhos.

"Isso é uma informação importante que devias ter dado no bloco cirúrgico."

"Eu sei."

"Ele deixou-te?"

"Ele casou." Ela abriu a bolsa térmica, conferiu a temperatura sem precisar, fechou. "Com uma amiga minha. Faz três anos. Está tudo resolvido, todo mundo é adulto, ninguém fala no assunto, e todo Natal alguém fala no assunto."

Ele ficou em silêncio um tempo.

"Cíntia."

"Oi."

"O nome que te veio à cabeça no Natal", ele disse. "Não foi o dele."

Capítulo Três

Close-up of a bride placing a wedding ring on the groom's finger during a ceremony. Photo by MELQUIZEDEQUE ALMEIDA via Pexels

O jantar de quinta foi na casa da tia Vilma, com quarenta pessoas e uma mesa de doces que ninguém tinha coragem de começar. Élio apareceu de camisa azul, cumprimentou todo mundo pelo nome depois de ouvir uma vez, e comeu duas porções de tudo, o que rendeu a aprovação imediata da tia.

"Ele come, Lourdes. Repara nele comendo."

Cíntia ficou perto da parede com um copo de refrigerante e viu o namorado falso dela explicar para o tio Nelson, com paciência de professor, por que um cachorro que ronca dormindo pode estar com problema de laringe.

Túlio chegou perto por trás. Cheiro igual, voz igual.

"Então é ele."

"É ele."

"Português?"

"De Braga."

"Sério mesmo isso?" Túlio riu com o copo na frente da boca. "Você sempre teve uma queda por projeto complicado."

Cíntia sentiu a mão fechar sozinha no copo. Do outro lado da sala, Élio virou a cabeça, viu, e atravessou o cômodo sem pressa nenhuma, do jeito dele, e parou ao lado dela com a mão espalmada de leve nas costas dela, sem apertar.

"Túlio, certo?", ele disse. "A Cíntia falou de si."

"Falou?"

"Falou." Ele pegou o copo da mão dela e trocou por um copo de água. "Disse que você é padrinho. Deve ser muito trabalho."

Túlio abriu a boca e não achou nada. Foi embora dizendo que ia buscar cerveja.

Na varanda, depois, Cíntia estava com os cotovelos no muro e as luzes da serra lá embaixo.

"Você não precisava", ela disse.

"Eu sei."

"Aquilo das costas. A mão."

"Se te incomodou, não faço mais."

Ela virou. Ele estava a um passo, com a camisa azul amassada do jantar, e um risco de calda de doce no punho que ele não tinha percebido.

"Não me incomodou", ela disse.

"Está bem."

"Élio."

"Diz."

"Por que você aceitou tão rápido?"

Ele olhou a serra por um tempo longo. "Em setembro eu vou-me embora. Aceitei um lugar num hospital veterinário em Lisboa. Assinei em maio."

Ela sentiu o muro frio debaixo dos braços.

"Maio."

"Maio." Ele virou o rosto para ela. "E em junho tu começaste a rir das minhas piadas, que são poucas e são más, e eu passei três meses a pensar se dizia alguma coisa ou se ficava calado até setembro, que era o mais limpo." Ele deu de ombros. "Depois apareceste no bloco a pedir-me quatro dias. Achei que era o universo a fazer troça de mim."

Cíntia esqueceu completamente de respirar.

"Isso é uma declaração?"

"É uma explicação." Ele sorriu, o que era raro. "A declaração seria muito mais desajeitada."

Ela subiu a mão até a gola da camisa dele e puxou dois centímetros. Ele deixou.

"Eu posso?", ela perguntou.

"Podes."

O beijo tinha gosto de doce de leite e durou até a tia Vilma abrir a porta da varanda, ver, fechar de novo e gritar para dentro da casa que ia servir o café.

Capítulo Quatro

Close-up of a groom adjusting his flower boutonniere, symbolizing wedding elegance. Photo by MELQUIZEDEQUE ALMEIDA via Pexels

Na sexta, no ensaio, a mãe descobriu.

Não foi nada dramático no começo. Lourdes estava com a lista dos lugares na mão e perguntou o sobrenome de Élio para o cartãozinho da mesa.

"Sotto Maior", ele disse.

"E vocês estão juntos desde quando, filho?"

"Desde ontem."

O corredor da igreja tem um eco bom para violino e péssimo para conversa. Lourdes baixou a lista.

"Como assim ontem?"

Cíntia sentiu quarenta cabeças virarem. Sentiu Túlio parar de mexer no celular. Sentiu a irmã, de vestido de prova, congelar no altar com o buquê de mentira na mão.

E disse a coisa errada.

"Ele está brincando, mãe." Ela riu, e a risada saiu fina. "A gente está junto desde dezembro. Ele é assim, faz piada. Não é nada sério, esse negócio de ontem, ele só... não é nada."

O silêncio depois disso teve exatamente o tamanho de uma nave de igreja.

Élio pôs a lista de volta na mão de Lourdes com muito cuidado, como quem devolve um copo cheio.

"Com licença", ele disse.

Ela alcançou o carro dele no estacionamento de cascalho, sem casaco, com o vento da serra cortando.

"Élio, espera."

Ele parou com a chave na mão, mas não abriu a porta.

"Eu avisei-te de uma coisa só", ele disse. "Uma. Eu não minto sobre mim."

"Eu sei."

"Eu podia ter dito dezembro. Passou-me pela cabeça, e eu não disse, porque se eu começo a mentir sobre nós dois logo no primeiro dia, o que é que sobra em setembro?" Ele falou baixo, e foi pior do que se tivesse gritado. "Tu não mentiste à tua mãe, Cíntia. Tu disseste, à frente de quarenta pessoas, que não era nada sério, e olhaste para mim enquanto dizias."

"Eu me apavorei."

"Eu sei que te apavoraste." Ele abriu a porta. "E é isso que me mata. Porque eu não te quero em pânico. Eu queria-te a escolher."

O carro desceu a serra. Ela ficou no cascalho até alguém trazer um casaco.

Capítulo Cinco

Bia casou no sábado às cinco da tarde, e chorou, e o Ceará chorou mais.

Na hora do brinde, Cíntia pegou o microfone que ninguém tinha pedido para ela pegar.

"Eu menti para vocês em dezembro", ela disse. "Menti no Natal, menti em janeiro, menti no telefone com a mãe umas vinte vezes. Eu não estava namorando ninguém. Eu inventei um homem porque é mais fácil inventar um homem do que dizer nesta família que eu estou sozinha e que estou bem, e que os dois anos depois do Túlio foram os melhores da minha vida."

Alguém deixou cair um talher.

"Aí eu pedi para um colega meu fingir por quatro dias. Ele veio. Comeu duas porções de tudo, tia Vilma. Foi gentil com a senhora, mãe. E na sexta, quando eu tive que escolher entre a verdade e a vergonha, eu escolhi errado, na frente dele, no meio da igreja." Ela levantou a taça. "Bia, casa feliz. Eu vou pegar a estrada."

Élio abriu a porta do apartamento em Laranjeiras às onze e vinte da noite, descalço, com a mesma camisa azul.

Ela estava no corredor com o vestido de festa e um tênis, porque tinha dirigido duas horas de salto e desistiu na Washington Luís.

"São cinco meses até setembro", ela disse. "Depois é avião de nove horas e eu tenho medo de avião, e eu tenho uma clínica com sócio, e eu tenho uma gata velha com insuficiência renal que não voa. Isso tudo é verdade e nada disso mudou hoje."

"Está bem."

"Eu não vim te prometer nada organizado."

"Eu não pedi nada organizado." Ele encostou o ombro no batente. "Pedi que escolhesses."

"Eu escolhi." Ela levantou a mão, e nos dedos estava a aliança de prata da avó, que ela usava no anelar desde os vinte e três só porque cabia. Tirou e devolveu ao dedo do meio, onde era o lugar dela. "Escolhi na frente de cento e vinte pessoas e de um bolo de quatro andares. Pode perguntar para minha tia."

Élio olhou a mão dela, depois o rosto.

"Entra", ele disse. "Está frio."

Sobre esta história

Por que Cíntia inventou justamente o nome do Élio no Natal?

Porque naquela semana ela tinha passado seis plantões seguidos com ele e chegado em casa três vezes contando alguma coisa que ele tinha dito. O nome estava na boca dela. Na hora ela achou que era coincidência de vocabulário. Só entendeu o que era em maio, quando ele mencionou por acaso que talvez saísse do país e ela sentiu o estômago cair antes de qualquer raciocínio.

O que aconteceu com o Túlio depois do casamento?

Ele mandou uma mensagem no domingo à noite dizendo que o discurso tinha sido corajoso e perguntando se ela estava bem. Cíntia leu, deixou sem resposta por dois dias e depois respondeu com uma frase de cinco palavras. Não se falaram mais desde então, o que é a primeira vez em três anos que o silêncio entre os dois é escolha dela.

Ele foi mesmo para Lisboa em setembro?

Foi. O contrato era de dois anos e ele não pediu adiamento, porque o hospital tinha segurado a vaga desde maio. Cíntia levou a gata para o sócio cuidar e passou vinte e dois dias em Lisboa em novembro, com passagem comprada em três parcelas e um comprimido de calmante que ela não tomou no avião.

A mãe dela perdoou a mentira de dezembro?

Lourdes ficou magoada por um mês, não pelo namorado inventado, mas por descobrir na igreja e não na cozinha. Depois ligou num domingo e perguntou se o rapaz português comia peixe, porque ia fazer bacalhau. Foi assim que ela disse que estava tudo bem, e as duas entenderam.

Eles vão ficar juntos de verdade ou é distância até acabar?

Ela vendeu a parte dela na clínica em março e foi trabalhar num centro de reabilitação de animais silvestres perto de Setúbal, com salário menor e horário pior. A gata foi de porão, sedada, com o próprio anestesista dela dentro do avião. Foi a coisa mais desorganizada que Cíntia fez na vida, e ela conta isso rindo.