O Reencontro Improvável

Depois de anos evitando pensar nele, ela o encontrou parado diante dela, mais intenso do que lembrava. O sorriso torto, a postura segura… e aquele silêncio que carregava tudo o que nunca tinham dito. Marina sentiu o estômago se contrair, como se alguém tivesse puxado o chão sob seus pés. Não era possível. Não ali. Não depois de tanto tempo tentando esquecer.

Gabriel não se mexeu. Apenas a observava como quem reencontra uma verdade que tentou apagar — e falhou.
— Faz tempo — ele disse, num tom baixo, quase íntimo demais para um lugar público.

Ela respirou fundo. O ar pesava entre os dois.
— Anos — respondeu, firme por fora, tremendo por dentro.

Ele deu um passo. Não um passo inteiro — só o suficiente para que ela pudesse sentir o perfume que não lembrava mais, mas reconheceu de imediato. Um perfume que carregava memórias que ela prometera enterrar.

— Nunca imaginei ver você aqui — ele confessou.
— Eu também não. — Ela desviou o olhar, sabendo que encará-lo por mais tempo seria perigoso.

Os dois ficaram presos num silêncio que dizia muito mais do que qualquer palavra. Porque havia história ali. Havia coisas inacabadas. E, principalmente, havia algo que nenhum dos dois teve coragem de encarar antes.

A tensão cresceu, invisível, densa.
Ele a estudava com cuidado. Ela fingia indiferença.
Mas ambos sabiam.

— Você mudou — Gabriel disse, quebrando o ar.
— As pessoas mudam.
— Nem todas. — O olhar dele deslizou pelo rosto dela, lento o suficiente para que ela sentisse o impacto. — Algumas só ficam mais difíceis de esquecer.

Marina parou de respirar por um instante. Ele sempre soube exatamente onde tocar — mesmo sem encostar um dedo.

— Não começa — ela murmurou.
— Quem disse que eu terminei?

Ela sentiu o calor subir pelo corpo. O pior era que ele não dizia essas coisas por provocação gratuita; dizia porque era verdade. E porque tinha coragem de dizer tudo aquilo que ela passava a vida evitando.

— Gabriel… — Ela tentou manter a distância.
— Eu sei — ele sussurrou. — Eu também não deveria estar aqui. Mas estou.

O conflito dela era simples e devastador: ela sabia que se aproximar significava abrir feridas que levaram anos para fechar. Mas, ao mesmo tempo, sentia que ficar longe dele era uma mentira da qual esteve fugindo desde o início.

Ele deu outro passo. Dessa vez, mais perto. Perto demais.
A respiração dele tocava a pele dela, e aquilo mexeu com algo que ela julgava estar morto.

— Por que você foi embora? — Marina perguntou, deixando escapar uma pergunta que jurara nunca fazer.
— Porque achei que era o certo.
— E era?
Ele a encarou com um olhar que a desarmou completamente.
— Não.

A sinceridade o deixou vulnerável. Ela sentiu o impacto. O coração acelerou. O corpo reagiu antes da mente.

As mãos deles se encontraram sem querer — ou talvez não fosse tão sem querer assim. Um toque breve. Quase nada. Mas aquele quase incendiou tudo.

— Marina… — o nome saiu como um suspiro contido. — Eu não passei um dia sem pensar no que teria acontecido se eu tivesse ficado.

Ela fechou os olhos. Sentiu a dor e o desejo misturados, pulsando como uma confissão silenciosa.
— Eu tentei te esquecer — ela admitiu, num fio de voz.

Ele se aproximou até que as testas quase se tocassem.
— Não tenta mais.

O mundo ao redor desapareceu. Só existia o calor entre os dois. O quase-beijo que ameaçava acontecer a qualquer segundo. O magnetismo que parecia puxá-los um para o outro com uma força antiga, reconhecível, inevitável.

— Se eu me aproximar… — ela começou.
— Eu deixo — ele respondeu.

Ela abriu os olhos. Os dele estavam queimando, mas havia algo novo ali. Algo maduro. Real.

— Gabriel… isso é um erro — ela disse, mesmo sabendo que já estava cedendo.
— Talvez. — Ele tocou a bochecha dela com a ponta dos dedos, suave, preciso. — Mas é o único que eu quero cometer.

Marina sentiu o corpo inteiro se render. Não ao passado, mas ao que ainda existia. Ao que sempre existiu.

Ela não o beijou. Ele também não avançou.
Mas ficaram ali, tão perigosamente perto que o futuro parecia respirar entre eles.

— Isso não acaba aqui — ele sussurrou.
— Eu sei — ela respondeu.

E, pela primeira vez em anos, ela não tentou fugir do que sentia.
Deixou a porta entreaberta.

Um reencontro improvável.
Um recomeço inevitável.
Uma promessa queimando no ar.

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