
Três Dias Para Te Esquecer
Capítulo Um
Ela esbarrou no ombro de alguém na porta do bar e o copo de caipirinha que carregava tombou, derramando gelo e cachaça pelo braço de uma camisa branca.
"Droga", disse Pedro, segurando a manga encharcada. "Marta?"
Ela congelou com o copo vazio na mão. Três anos. Três anos e ele ainda usava a mesma camisa de linho, o mesmo jeito de levantar uma sobrancelha quando não sabia o que dizer.
"Você está aqui", ela disse. Não era uma pergunta.
"O casamento é amanhã." Pedro estendeu o braço para um guardanapo no balcão. "Do meu irmão. Lembra que eu falei?"
Marta lembrou. Lembrou de tudo. Do convite que ele tinha mencionado numa manhã de domingo, deitado na cama dela, com a voz ainda rouca de sono. "O Daniel vai casar em setembro. Você vai, né?" E ela tinha dito que sim.
"Achei que você não viria", disse ela agora. "Depois de tudo."
"Depois de você sumir?" Ele passou o guardanapo no punho, sem pressa. "Eu vim porque o Daniel é meu irmão. E você?"
"O noivo é primo da minha irmã."
Ele soltou uma risada curta. "É, o mundo é pequeno."
O garçom apareceu. Marta pediu outra caipirinha. Pedro pediu uma cerveja. Por um momento ficaram em silêncio, olhando para as mesas de madeira, para a luz amarelada que pendia do teto.
"Três dias", ela disse.
"O quê?"
"Vou ficar três dias. A cidade é pequena, a pousada é perto da igreja, o almoço do dia seguinte é na casa da minha tia. Mas você não precisa se preocupar." Ela colocou o copo vazio no balcão. "Vou evitar você."
Pedro bebeu um gole da cerveja. "Não precisa evitar. Somos adultos."
"Adultos que passaram três anos sem se falar."
"Porque você quis", ele disse. A voz baixou. "Você foi embora, Marta. Sumiu do mapa. Deixou um bilhete."
"Foi o que eu consegui fazer."
"Conseguiu. Parabéns."
Ela pegou o novo copo que o garçom deixou. A bebida estava forte, gelada, e ela bebeu um gole grande demais. A garganta ardeu.
"Você ia se casar com outra pessoa", disse ela, baixando o copo. "Não ia? Foi o que você disse."
"Sim. E você disse que estava bem com isso."
"Eu estava."
"Então por que sumiu?"
O bar estava cheio, mas ninguém olhava para eles. Marta apoiou as duas mãos no balcão, os dedos abertos sobre a madeira. Ela viu o próprio anel de prata, fino, comprado numa feira. Ele não usava mais o dele.
"Porque não estava", ela disse. "Não estava bem. E fui covarde."
A música ao fundo trocou, uma canção antiga, que os dois conheciam. Pedro ficou em silêncio.
"Três dias", ele repetiu, como se provasse o peso das sílabas.
"Três dias para te esquecer", ela disse. "Foi o que prometi a mim mesma quando vi seu nome no convite."
Pedro virou o corpo na direção dela, apoiando um cotovelo no balcão. "E aí, está conseguindo?"
Marta olhou para os olhos dele. Olhos escuros, com uma ruga fina no canto que não existia três anos atrás. Ela pensou nos três dias de praia, de sol, de família, e em como ia fingir que Pedro não existia. Mas ele estava ali, molhado de cachaça, e parecia tão desarmado quanto ela.
"Não", ela disse.
Capítulo Dois
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A cerimônia foi na praia, ao fim da tarde. Marta sentou na última fileira de cadeiras, perto de um coqueiro que fazia sombra irregular. A irmã dela, Camila, estava dois bancos à frente, com um vestido azul e o cabelo preso.
Pedro entrou pelo lado, com o irmão, e passou tão perto que Marta sentiu o cheiro de protetor solar e mar. Ele não olhou para ela.
O padre falou sobre amor e compromisso. Marta ouviu sem prestar atenção, os olhos fixos no mar. As ondas vinham e iam com um barulho constante, como se o tempo fosse uma coisa só. Três anos tinham passado, e aqui estava ela.
Quando os noivos se beijaram, todo mundo aplaudiu. Marta aplaudiu também, e viu Pedro no canto, uma fileira à frente, aplaudindo com um sorriso que não chegava aos olhos.
O coquetel foi numa tenda armada na areia, com luzes de corda e mesas baixas. Marta pegou uma taça de espumante e se esgueirou para um canto perto das dunas. A noite caía rápido.
"Você está escondida."
Ela virou. Pedro estava atrás dela, com uma taça na mão e o paletó pendurado no ombro.
"Estou admirando a paisagem", ela disse.
"Hum." Ele se aproximou. "A paisagem ou a fuga?"
"Você não precisa vir atrás de mim, Pedro."
"Eu sei." Ele bebeu um gole. "Mas eu quero."
Ela fechou os olhos por um segundo. O vento trazia o som das ondas e das conversas, o tilintar de taças. Quando abriu, Pedro estava mais perto.
"Você disse que ia me esquecer", ele disse. "Não parece que está conseguindo."
"Talvez eu não queira mais."
"As coisas mudam."
"As coisas mudam", ela concordou. "Mas eu ainda lembro de você acordando cedo no domingo para fazer café. Você esquecia o açúcar, e eu tomava amargo e não reclamava."
"Por que não reclamava?"
"Porque você fazia com leite fervido, e ninguém nunca fez café fervido para mim."
Ele riu, um riso baixo que ela conhecia bem. "Você não falava isso."
"Eu não falava muita coisa."
Pedro encostou a taça na dela, sem jeito. "Pode falar agora. A gente tem três dias, não tem?"
"Amanhã é o almoço na casa da minha tia", ela disse. "Depois tem a viagem de volta."
"Então dois dias. E algumas horas."
Marta bebeu o espumante. O gás subiu ao nariz. Ela pensou no bilhete que deixou, escrito numa folha de caderno às pressas, com a caligrafia torta. "Preciso ir. Desculpa. Não me procura." E tinha ido. E ele não tinha procurado.
"Você nunca me perguntou por que não te procurei", disse Pedro, como se lesse o pensamento.
"Você não ia se casar?"
"Quase casei. Desisti duas semanas antes."
Marta sentiu o chão se mover, como se a areia fosse um líquido. "O quê?"
"Ela soube. Soube que eu ainda pensava em você. Eu ia te contar, Marta. Mas você tinha sumido."
"Eu sumi porque você ia se casar."
"E eu desisti porque você sumiu."
O silêncio entre eles durou tanto que a música na tenda mudou, uma canção nova, mais lenta. Marta sentiu o copo vazio na mão e o coração batendo no lugar errado, na garganta.
"A gente é muito idiota", ela disse.
"Você é muito idiota", ele corrigiu, com um sorriso no canto da boca. "Eu sou só um pouco."
Ela riu, e foi a primeira vez em três anos que riu de verdade, sem ensaiar.
Capítulo Três
O almoço na casa da tia de Marta era uma confusão de crianças correndo e adultos falando alto. Ela tinha se sentado perto da janela, para ver o jardim, e tentava comer o arroz que a tia forçou no prato.
Pedro apareceu na porta da cozinha com uma garrafa de vinho e um sorriso forçado. A tia de Marta, dona Lurdes, recebeu como se ele fosse parente há anos.
"O namorado da Marta! Que bom que veio!"
Marta sentiu as bochechas queimarem. "Tia, ele não é."
"Claro que é, trouxe vinho." Dona Lurdes pegou a garrafa e puxou Pedro para perto da mesa. "Senta aqui, do lado dela."
Pedro sentou. Marta passou a mão na nuca e sentiu o suor.
"Almoço de família", ele sussurrou.
"Você não foi convidado."
"Fui, sim. A sua tia me convidou."
"Você não conhece a minha tia."
"Conheço, sim. Vi ela na igreja ontem. Ela perguntou meu nome. Eu falei que era Pedro, o ex que você ainda ama."
Marta quase engoliu o arroz errado. "Você não disse isso."
"Disse, sim. Mas dei um jeito." Ele pegou o garfo dela e comeu um pedaço de carne do prato. "Falei que vim para tentar, que você valia a pena."
"Dois dias, Pedro."
"O que são dois dias?"
Ela olhou para ele, para o garfo que ele tinha acabado de usar, para a forma como ele mastigava devagar, sempre devagar. Lembrou da primeira vez que almoçaram juntos, num restaurante com luz fluorescente, e ele tinha dito que não gostava de pressa.
"O que são dois dias para desfazer três anos?", ela perguntou.
"O bastante", ele disse. "Se você quiser."
A tia passou com a travessa de batatas, e Marta ficou em silêncio. As crianças gritaram no jardim. O sol entrava pela janela e batia na mão de Pedro, que estava aberta sobre a mesa, os dedos separados.
Ela não estendeu a mão. Mas não a afastou.
Depois do almoço, quando a família se espalhou pelo quintal, Marta encontrou Pedro na varanda dos fundos, de pé perto do pé de jabuticaba.
"Você não vai me dizer o que quer", ela disse. "Você só está aí, com essas conversas de canto."
"O que eu quero?" Ele virou. "Marta, eu passei três anos querendo entender por que você foi. E quando eu finalmente entendi, você não estava."
"Entendeu o quê?"
"Que você tinha medo. Medo de não ser suficiente, medo de eu trocar você por outra. E eu vou te dizer uma coisa." Ele deu um passo. "Você era suficiente. Você era tudo. E eu nunca soube dizer."
Marta prendeu a respiração. O pé de jabuticaba balançou com uma brisa que veio do mar, e ela sentiu o cheiro de terra molhada.
"Eu passei três anos pensando que você ia se casar", ela disse. "Que eu fui um desvio, uma história de um verão. E só agora, aqui, eu percebo que você também estava perdido."
"Perdido e sozinho", ele disse. "Igual você."
Ela deu um passo em direção a ele, e depois outro. A mão dele tocou a dela, os dedos se entrelaçaram, e Marta sentiu a pele quente, o toque que não sentia há três anos.
"Três dias", ela sussurrou.
"Três dias", ele repetiu, e puxou a mão dela para perto do peito.
Capítulo Quatro
Imagem gerada por IA (Cloudflare Workers AI)
O quarto dia amanheceu com chuva.
Marta acordou na pousada, com o som da água batendo nas folhas de bananeira. Pedro estava ao lado dela, ainda dormindo, com o braço estendido sobre o travesseiro como se procurasse alguma coisa.
Ela se levantou sem fazer barulho, vestiu a calça e a camisa que estavam na cadeira. A janela dava para o jardim, uma mancha verde borrada pela chuva.
O bilhete que ela tinha deixado três anos atrás voltou à memória com uma nitidez dolorosa. Ela leu cada frase mentalmente, as palavras simples, o adeus definitivo. "Não me procura."
Ela não ia repetir o erro. Não ia sumir outra vez.
Pedro mexeu na cama e abriu os olhos. "Você está se vestindo?"
"Está chovendo."
"E você vai sair?" Ele se sentou, o lençol cobrindo o peito. "Marta, não."
"O quê?"
"Se você for agora, eu vou atrás." Ele passou a mão no rosto. "Desta vez eu vou atrás."
Ela voltou para a cama, sentou na borda. "Não estou indo, Pedro. Estou só olhando a chuva."
Ele a olhou por um longo momento. "Você está com medo."
"Todo dia."
"Eu também." Ele tocou o braço dela. "Mas acho que a gente pode ter medo junto."
Marta sentiu um nó na garganta. Ela olhou para a mão dele, para os dedos que três anos antes tinham segurado o bilhete, que tinham se fechado em torno do papel. Ela nunca perguntou como ele tinha recebido a notícia. Nunca perguntou o que ele sentiu.
"O que você fez", ela perguntou agora, "quando leu o bilhete?"
Pedro baixou os olhos. "Peguei o carro e dirigi até sua casa. Você não estava. Fui na casa da sua mãe, do seu irmão. Ninguém sabia onde você tinha ido. Só que tinha ido embora." Ele suspirou. "Depois fiquei no apartamento, olhando a parede. Bebi uma garrafa de vinho, acho."
"Eu fui para a casa da minha avó", ela disse. "No interior. Fiquei lá uma semana sem falar com ninguém."
"Por que não me disse?"
"Porque eu não queria que você me visse assim. Eu sabia que você ia desistir do casamento se eu pedisse. E eu tinha medo de ser a razão de você perder tudo."
"E se eu tivesse perdido tudo mesmo? E se eu tivesse casado?"
Marta sentiu o estômago apertar. "Eu teria passado o resto da vida me perguntando."
Pedro segurou a mão dela, forte. "Não precisa mais se perguntar. Estou aqui."
A chuva continuou caindo, e Marta deitou ao lado dele, a cabeça no travesseiro, o corpo encostado no dele. Ela sentiu a respiração dele, o batimento do coração.
"Fica", ele disse. "Não precisa ser três dias. Pode ser mais."
"O que a gente vai dizer?"
"Vamos dizer que três dias não foram suficientes. Que a gente precisa de mais três, e mais três, até conseguir se esquecer."
Marta riu, com o rosto na curva do ombro dele. "Isso não faz sentido."
"Faz, sim." Ele beijou o topo da cabeça dela. "É o sentido que eu quero."
Mais tarde, quando a chuva parou e o sol começou a aparecer entre as nuvens, Marta abriu o celular e desfez a reserva da passagem de volta. Pedro estava no chão, arrumando a mochila, e olhou para ela.
"Três dias a mais", ela disse.
"Três dias a mais, três dias a mais, até a gente não lembrar mais de contar."
Sobre esta história
Por que Marta não ficou e conversou três anos atrás, já que ele ainda a amava?
Porque ela ouviu "vou casar" e achou que era o fim. Na cabeça dela, ficar seria implorar por um amor que já tinha escolhido outro caminho. O medo de ser rejeitada foi maior que a coragem de perguntar. Só agora, com a distância, ela vê que podia ter perguntado.
O que Pedro fez nos três anos que separaram os dois?
Tentou seguir em frente. Teve outros encontros, outras noites. Mas nenhuma mulher fazia café fervido como ela, nenhuma ria como ela ria quando ele esquecia o açúcar. Ele desistiu do casamento porque percebeu que não era justo com ninguém ser o segundo lugar.
Se o irmão dele soubesse que Pedro ainda amava Marta, teria convidado ela para o casamento?
O Daniel sabia. Foi ele quem colocou o nome de Marta na lista, mesmo sabendo que o irmão ia passar mal ao vê-la. Daniel achava que eles precisavam se encontrar de novo, nem que fosse para se despedir de vez. No fundo, apostou que ia dar certo.
Por que Marta voltou para a cidade do casamento depois de tanto tempo?
Porque era um compromisso de família, e Marta sempre foi fiel aos compromissos. Também porque, no fundo, ela queria saber se ainda doía. Se doesse, significava que ainda amava. Se não doesse, significava que tinha superado. Ela não sabia qual das duas coisas era pior.


