
O Vizinho do Terceiro
Capítulo Um
O interfone chiou às duas da manhã. Clara largou o livro no colo, os olhos grudados na portaria vazia do monitor. Ninguém. O prédio dormia, o vento balançava a mangueira no pátio interno. Ela ia desligar quando ouviu uma respiração, curta, como se alguém tivesse segurado o som no fundo da garganta.
"Atendeu", disse uma voz. Grave, pausada. "Você deixou a janela da cozinha aberta, Clara."
Ela não reconheceu a voz. Não pediu quem era. Em vez disso, levantou-se devagar, os pés descalços no piso frio, e foi até a cozinha. A janela de correr estava escancarada, a cortina de renda batendo contra o azulejo. Ela fechou, trancou as duas travas, e voltou para o interfone.
"Como você sabe meu nome?"
"Seu nome está na caixa de corretores", disse ele. "E na campainha. E na porta do seu apartamento."
"E como sabe da janela?"
"Eu vejo daqui."
Clara encostou o ombro na parede, o coração batendo meio descompassado. O apartamento em frente pertencia a um senhor que viajava a trabalho, ela sabia porque a filha dele recolhia a correspondência uma vez por mês. Fazia três meses que a filha não vinha.
"Você mudou", disse ela.
"Sim."
"Para o que?"
"Acho que você já sabe."
Ela não sabia. Mas uma semana depois, quando encontrou o bilhete embaixo do tapete do corredor, entendeu que ele sabia dela: o horário que saía, que corria no parque sábado cedo, o perfume que usava porque ele tinha anotado a marca na embalagem jogada no lixo.
O bilhete dizia apenas: "Você esqueceu a chave na fechadura ontem. Guardei. Devolvo quando pedir."
A chave estava na mão dele. Ela não lembrava de ter esquecido.
Capítulo Dois
Elias não usava o interfone depois da primeira noite. Clara passou a encontrá-lo no elevador, no corredor, na portaria. Ele sempre chegava antes, como se soubesse quando ela desceria. Tinha uma barba mal aparada e olhos que não se desviavam, azul-escuros, quase pretos no corredor mal-iluminado do terceiro andar.
"Você trabalha em casa?", perguntou ele uma tarde.
Ela segurava a sacola de supermercado, as alças cortando os dedos. "Sim. Tradução. Por quê?"
"Porque sua luz fica acesa até tarde. A da sala." Ele apontou para o apartamento dela. "A minha também."
Clara não respondeu. No dia seguinte, fechou a cortina da sala. No outro, abriu de novo porque o quarto ficava escuro demais. Na terceira noite, olhou pela fresta e viu a silhueta dele na janela do prédio em frente, imóvel, os braços cruzados.
Ela devia ter chamado o síndico. Devia ter ligado para a polícia. Mas havia uma coisa, um movimento quase imperceptível que ele fez naquela noite: levantou a mão e acenou. Não com a palma aberta, mas com dois dedos, como quem cumprimenta um conhecido. Clara não acenou de volta. Também não desviou o olhar.
Quando o interfone tocou na semana seguinte, ela atendeu antes de ver quem era.
"Você está comendo mal", disse ele. "Vi sua sacola. Só pão e iogurte. Coma uma carne vermelha de vez em quando."
"Você não deveria estar vendo o que tem na minha sacola."
"É difícil não ver quando você passa debaixo da minha janela."
Ela desligou. Mas no sábado, sem nenhum recado, apareceu um pacote na portaria: um bife embalado a vácuo, uma batata doce e um bilhete escrito à mão, a caligrafia miúda e apertada. "Não é veneno. Mas você não precisa confiar."
Clara deixou o pacote na geladeira. Cozinhou o bife três dias depois, quando a fome apertou e a razão cedeu. Estava bom. Macio demais. E ela comeu tudo, com raiva, mordendo a carne como se pudesse morder a cara dele.
Capítulo Três
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No dia em que o elevador quebrou, Clara subiu as escadas. Ele desceu. Encontraram-se no patamar entre o segundo e o terceiro andar. Elias segurava uma caixa de ferramentas e a camisa estava suada no peito. Ela ia passar reto, mas ele falou: "Sua torneira está pingando."
"O que isso tem a ver com você?"
"Nada", disse ele. "Só sei que pinga porque ouço de noite. O cano do meu banheiro vibra com o seu."
Ela parou. Subiu mais um degrau, ficou na mesma altura que ele, os olhos no mesmo nível. Perto assim, viu uma cicatriz fina descendo da orelha até o maxilar, escondida pela barba. Tinha visto aquela cicatriz antes, em algum lugar. Não uma foto. Uma notícia.
"Quem é você de verdade?", perguntou.
O olhar dele não vacilou. "Elias Rocha. Engenheiro civil. Mudei para cá há dois meses."
"Você não trabalha com engenharia."
"Como sabe?"
"Você não tem a mão calejada de quem segura ferramenta. Tem calo de quem segura arma."
O silêncio esticou. Ele riu baixo, sem humor. "Você é uma tradutora muito atenta."
"Tradutora é sobre palavras", disse ela. "Você não está usando as certas."
Ela passou por ele. Subiu o último lance e entrou em casa com a chave que ele tinha devolvido debaixo do tapete na semana anterior, num envelope branco, sem mais nada escrito. Naquela noite, em vez de ir para o computador, sentou na janela da sala e esperou.
Ele acendeu a luz do apartamento dele. Não era a sala. Era o quarto. Ela nunca tinha visto aquela janela acesa antes. Clara reparou que ele tinha o mesmo hábito que ela: ler na cama até tarde, o livro aberto no peito.
Ela pegou o telefone e digitou o nome dele: Elias Rocha. O único resultado era uma notícia de cinco anos atrás, sobre a morte de um homem no bairro da Lapa. A vítima era um traficante. O suspeito, um policial à paisana, tinha sido inocentado por legítima defesa. Não havia foto do policial.
Clara fechou o navegador. Desligou o celular. No dia seguinte, às seis da manhã, bateu na porta dele com um café na mão.
"Você me segue", disse ela. "Sabe quando acordo, quando saio, o que compro. Quero saber uma coisa."
Ele encostou no batente, os braços cruzados, a barba mais comprida que na semana passada. "Pergunta."
"Você sabe a hora que eu durmo."
"Sei."
"Então sabe que eu não durmo bem."
"Sei."
Ele estava nu da cintura para cima, as costelas desenhadas sob a pele. Clara enfiou o café na mão dele e disse: "Vai me dizer por que veio para cá? Não quero sua história como policial. Quero a sua história comigo."
Ele bebeu o café. Os dedos envolveram o copo com cuidado, como quem segura algo quente e frágil.
"Porque naquela noite, quando o interfone tocou, você não desligou", disse ele. "Você ouviu minha respiração e não desligou. Ninguém nunca ouve minha respiração."
Ela ficou parada, a porta entre eles. O corredor vazio, o sol entrando pela janela do fim, a poeira flutuando. E pela primeira vez, Clara viu a mão dele tremer ao segurar o copo.
"Eu também não durmo bem", disse ele. "Desde que vi você na janela, faz três meses."
Capítulo Quatro
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Eles começaram a se encontrar no patamar. Não na casa dele, não na dela. No degrau entre os andares, como se aquele lugar fosse neutro, uma terra de ninguém. Elias levava café. Clara levava perguntas.
"Você matou alguém?", perguntou ela na terceira semana.
Ele demorou a responder. "Não em legítima defesa."
"Em quê, então?"
"Em raiva."
Clara não se afastou. Sentou no degrau ao lado dele, os joelhos encostando nos dele. Ele não se moveu.
"E o que você fez?", perguntou.
"Escondi. Mudei de nome. Vim para cá."
"Por que aqui? Você não tem família, não tem amigos. Eu vi sua correspondência. Só contas."
"Porque aqui eu vi você", disse ele, a voz mais baixa. "Antes de mudar. Eu vim ver o apartamento e você estava na janela com uma xícara, olhando a chuva. Fiquei no carro quarenta minutos vendo você olhar a chuva. Parecia que você esperava alguém que não vinha."
Clara lembrou daquele dia. A chuva forte de março, a xícara de chá, a sensação de que alguém a observava. Ela tinha achado que era impressão, os nervos de morar sozinha.
"Você está me dizendo que se mudou para cá por minha causa."
"Sim."
"E qual é o plano? Ficar na janela me vigiando para sempre?"
Elias virou o rosto. Pela primeira vez, Clara viu a cicatriz inteira, uma linha pálida que cortava a bochecha. A mão dele subiu devagar, os dedos quase tocaram o rosto dela. Ele parou antes.
"O plano não existe", disse ele. "Eu só queria estar perto. Não queria que você soubesse."
"Mas eu sei."
"Sei que sabe."
Ela inclinou a cabeça. O rosto dela tocou a mão dele. Elias prendeu a respiração. Era o som que ela ouvira no interfone, a respiração contida, como se ele tivesse esquecido como se solta o ar.
"Você não é um bom homem", disse ela.
"Não."
"Mas você me trouxe bife."
"Trouxe."
Clara levantou. Pegou a mão dele, os dedos entrelaçados, e puxou. Ele se levantou também, mais alto do que parecia no degrau.
"Vem", disse ela.
Não foi para o apartamento dela. Foi para o dele. A porta estava aberta, o interior vazio, apenas uma cama e uma mesa. Nenhuma foto na parede, nenhuma prateleira. Só a janela voltada para a sala de Clara.
Ela olhou para a janela, o enquadramento perfeito, o ângulo exato. "Você me via todas as noites."
"Todas."
"E o que via?"
"Você lendo. Você comendo na mesa. Você dançando quando acha que ninguém vê."
Clara encostou na janela. A mão dele encontrou a cintura dela, leve, quase uma pergunta. Ela respondeu virando o rosto, a boca perto da orelha dele.
"Você pode ver agora também."
Ele não beijou. Encostou a testa na dela, os olhos fechados.
"Se eu te beijar agora", disse ele, "nunca mais vou conseguir parar. É isso que você quer?"
Ela não respondeu com palavras. Colocou a mão no peito dele, onde o coração batia forte demais, e apertou os dedos contra a pele.
"Já parou", disse ela. "Não precisa mais."
Capítulo Cinco
A filha do ex-morador apareceu dois dias depois. Bateu na porta de Clara, confusa, perguntando pelo pai. Clara não entendeu até ver Elias sair do elevador e a mulher gritar: "É você."
Clara colocou o corpo entre eles. "Quem é você?"
"Ana", disse Elias. "A filha do antigo dono."
"Não é o antigo dono", gritou Ana. "Ele invadiu. Meu pai morreu há dois meses. Ninguém devia estar aqui."
Clara olhou para Elias. Ele não negou.
"O apartamento estava vazio", disse ele. "A imobiliária não sabia. Não entrei arrombando, a porta estava destrancada."
"Você invadiu a casa do meu pai morto. E está aqui, olhando para a vizinha."
Ana puxou o celular. Clara segurou o pulso dela. "Não."
"Como não? Você sabe quem ele é?"
"Sei."
Ana parou. Olhou as duas, a mão de Clara ainda no pulso dela, e baixou o celular.
"Ele é perigoso", disse Ana.
"Sei disso também."
Ana foi embora. No corredor, Clara encostou na parede e soltou o ar. Elias não se aproximou.
"Você vai chamar a polícia?", perguntou ele.
"Devo."
"Por que não chamou antes?"
Ela olhou para ele, a cicatriz, os olhos escuros, as mãos que tremiam quando seguravam café.
"Porque eu também estou sozinha", disse ela. "Porque você me vê. E eu nunca fui vista por ninguém."
Ela entrou no apartamento dele. Ele a seguiu. As cortinas estavam abertas, a janela virada para a dela. Clara fechou a cortina.
"Você nunca mais vai me vigiar", disse ela.
"Não."
"Você nunca mais vai me seguir."
"Não."
"Você vai ficar aqui e olhar para mim. Só isso."
Elias assentiu. Clara tirou a camisa dele, a mão deslizando sobre a cicatriz no peito, outra, mais velha. As mãos dele encontraram a cintura dela, os dedos frios, e ela sentiu o medo no toque, a hesitação de quem espera ser empurrado.
Ela não empurrou. Puxou ele para a cama, as pernas entrelaçadas, o rosto encostado no pescoço dele.
"Não precisa vigiar mais", disse ela. "Pode ficar."
Ele ficou. As cortinas fechadas, o sol entrando pelas frestas, o prédio em silêncio. Clara acordou no meio da noite e ele estava acordado, os olhos abertos para o teto.
"Você estava dormindo", disse ele. "Respirando. Eu ouvi."
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
"Não precisa ouvir", disse ela. "Pode só sentir."
Ele fechou os olhos. Respirou fundo, o peito contra o dela, e pela primeira vez desde que ela o conheceu, o som que saiu dele foi solto, inteiro, sem segurar nada.
Sobre esta história
O que aconteceu com a filha do antigo morador? Ela voltou para denunciar?
Ana não voltou. Alguns dias depois, Clara encontrou um envelope debaixo da porta do apartamento de Elias, sem remetente, com uma cópia do contrato de aluguel do pai, cancelado três meses depois da morte. Ninguém reivindicou o imóvel. Ana preferiu esquecer que o pai teve um apartamento do que lidar com a polícia e o escândalo de um invasor.
Elias tem algum vínculo com Clara além da janela? Eles se conheceram antes?
Não se conheceram antes. Mas Clara traduzia depoimentos para um inquérito cinco anos atrás, sem foto, sem nome. Quando viu a cicatriz de Elias, reconheceu o padrão da lesão descrita no laudo. Ela não contou para ele. Guardou essa informação como ele guardou o horário dela, uma moeda de troca invisível.
Como fica a rotina de Clara depois que ele para de vigiar?
Ela precisou reaprender a se movimentar sem ser vista. Nas duas primeiras semanas, abria a geladeira e sentia falta de alguém comentando o conteúdo. Cozinhou carne demais, chorou sem saber por quê. Elias cozinhava com ela agora, os dois lado a lado, e a janela da sala de Clara ficou aberta à noite, mas agora o vento entrava sem medo.


