Intimate table setting with candles and red roses at night in a dark room.
Dark Romance

O Contrato de Inverno

Aviso de conteúdo sensívelMagalhães Raul8 min de leitura5 DE SET. DE 2026

Capítulo Um

O vestido tinha sido escolhido por outra pessoa, e apertava embaixo do braço direito. Adriana descobriu isso às sete e dez da noite, no corredor de serviço do salão, quando levantou o braço para checar as horas e sentiu o tecido travar.

"Fica reto", disse a mãe, puxando o cós. "Ele já chegou."

"Que bom para ele."

"Adriana."

"Estou reta." Ela abaixou o braço. "Estou reta há três semanas, mãe. Repara na minha postura."

A porta do salão abriu, e o barulho de trezentas pessoas conversando entrou de uma vez, junto com cheiro de flor branca e camarão frito. Adriana atravessou o corredor de mármore contando as juntas do piso, porque contar coisas era o que ela fazia desde a faculdade quando precisava atravessar um lugar sem gritar.

Ivo Ferraro estava perto da janela, sozinho, com uma taça de água na mão. Tinha o terno certo e o corte de cabelo certo e uma expressão de quem foi levado ao lugar errado e decidiu esperar sentado.

"Você é mais alta do que na fotografia", ele disse.

"Você mandou tirar fotografia minha?"

"Seu pai mandou. Chegaram três, todas de longe. Numa delas você está de capacete de obra."

"Aquela é do Jardim Antares." Ela pegou uma taça da bandeja que passava. "Eu projetei o bloco C. Tem trinta e dois apartamentos e um pátio que ninguém queria pagar."

"E pagaram?"

"Pagaram." Ela bebeu. "Meu pai é dono da construtora."

Ivo virou o rosto pela primeira vez para olhar direto para ela. Tinha olhos de uma cor difícil de nomear na luz amarela do salão, e um jeito de olhar sem piscar que ela achou desagradável e memorável na mesma proporção.

"Você não quer isso", ele disse.

"Eu não quero isso."

"Nem eu."

"Então somos duas pessoas razoáveis numa festa horrível." Ela olhou o salão por cima do ombro dele. "Meu pai diz que o senhor concordou por causa do porto."

"Seu pai diz muita coisa."

"E qual é a versão do senhor?"

Ivo pousou a taça de água no parapeito da janela. "A minha versão é que em dezembro mataram meu irmão numa oficina em Cubatão, e todo mundo nas duas famílias acha que isso não vai acabar em mais gente morta. O casamento é um papel que segura o pessoal em casa por uns anos."

Ela sentiu o gelo tocar os dentes e não bebeu.

"Quantos anos?"

"Cinco", ele disse. "Depois de cinco, ninguém liga mais."

Capítulo Dois

Casaram em quarenta dias, numa igreja de São Vicente, com dois padres e quatro carros da polícia parados na esquina por precaução. Adriana disse sim com a voz firme e depois vomitou na sacristia sem que ninguém visse.

A casa era dele, no alto de um morro, com vidro do chão ao teto e um jardim que ninguém regava. Ela levou dois caixotes de livros, uma prancheta e um cesto com as ferramentas de maquete.

"Escolhe um quarto", ele disse, na primeira noite.

"Quantos tem?"

"Cinco."

"E o seu é qual?"

"O do fim do corredor."

Ela escolheu o primeiro, o mais perto da escada, e ele não comentou. Nos primeiros dez dias eles se cruzaram na cozinha três vezes. Ele acordava às cinco, saía às seis, voltava depois das onze. Ela trabalhava na mesa de jantar porque era a única superfície grande da casa.

No décimo primeiro dia, ele chegou às sete da noite e encontrou a mesa tomada por uma maquete de papel paraná, um bairro inteiro em escala, com ruas de dois centímetros.

"O que é isso?"

"É o Antares se alguém tivesse escutado o arquiteto." Ela não levantou os olhos. "Tem creche no meio, tem comércio na esquina, tem sombra no verão. Meu pai cortou tudo para caber mais unidade."

Ivo largou o paletó na cadeira, sentou na ponta oposta da mesa e ficou olhando as ruazinhas.

"Aqui não passa caminhão."

"Passa. Cinco metros e meio."

"Passa apertado." Ele apontou com o dedo sem tocar. "E aqui, na esquina, o carro que sai do estacionamento não vê quem vem descendo."

Ela levantou a cabeça devagar. "Você entende de rua."

"Eu entendo de fuga", ele disse. "É outra coisa, mas dá no mesmo desenho."

Ela riu antes de decidir se queria rir. Foi um som curto e ela cortou pela metade, mas ele viu.

Capítulo Três

Close-up of a groom adjusting his flower boutonniere, symbolizing wedding elegance. Photo by MELQUIZEDEQUE ALMEIDA via Pexels

O inverno em Santos é úmido e não é frio, e mesmo assim ela sentia frio dentro daquela casa de vidro. Comprou dois cobertores e um aquecedor elétrico, e ele encontrou o aquecedor ligado na sala às duas da manhã, com ela dormindo no sofá em cima de plantas baixas.

Ele não a acordou. Desligou o aparelho, pôs o cobertor por cima dela e ficou na varanda até clarear.

Na manhã seguinte, ela desceu com o cabelo preso com um lápis e ele estava fazendo café.

"Você me cobriu", ela disse.

"Você ia queimar a casa."

"Obrigada mesmo assim."

Ele empurrou uma caneca pela bancada. "Seu irmão apareceu aqui ontem."

Ela parou com a caneca no meio do caminho. "O Rodrigo?"

"Ele quer que eu leve dois contêineres por semana no lugar dos quatro que a gente combinou. Diz que é reorganização."

"E é?"

"É teste." Ivo bebeu. "Ele quer saber quanto eu aceito engolir por causa de você."

"E quanto você aceita?"

"Depende do dia."

Adriana pousou a caneca. "Meu irmão vive dizendo que eu sou o preço de alguma coisa. Desde os quinze anos. Quando eu passei em arquitetura, ele disse que meu pai tinha comprado a vaga. Quando eu ganhei o concurso do centro cultural, ele disse a mesma frase na mesa de almoço, com a minha mãe ouvindo."

"E o que você fez?"

"Terminei de comer." Ela puxou o lápis do cabelo. "É o que eu sempre faço."

Ivo pousou a caneca ao lado da dela, e ficou tão perto que ela sentiu o cheiro de café e de sabão na pele dele.

"Comigo você não precisa terminar de comer."

"Isso é uma oferta de quê, exatamente?"

"De companhia." Ele não recuou. "Eu não vou te tocar por causa de um papel assinado em São Vicente. Se um dia for, vai ser porque você chegou perto primeiro."

Ela ficou olhando a boca dele por tempo demais para fingir depois que não tinha olhado.

"Você é muito organizado para um bandido."

"Sou um bandido organizado."

Ela chegou perto primeiro numa quinta-feira de julho, depois de um jantar em que os dois beberam vinho demais e falaram de concreto armado por duas horas. Ela pôs a mão no peito dele, na altura do primeiro botão, e esperou.

"Tem certeza?", ele perguntou.

"Tenho."

"Diz de novo."

"Tenho certeza, Ivo."

Ele apagou a luz da sala com a mão livre e a levou pelo corredor até o fim, e a porta do quarto dele ficou fechada até o sol bater no vidro.

Capítulo Quatro

Explore the lush landscapes of Quatro Ribeiras, Azores, with this picturesque trail under a vivid blue sky. Photo by Egor Kunovsky via Pexels

Ela achou a pasta em setembro, procurando fita adesiva na gaveta da escrivaninha dele.

Não era uma pasta escondida. Estava embaixo de dois cadernos, com o nome da construtora do pai dela na etiqueta, e dentro havia cópias de doze notas fiscais, quatro extratos e uma folha manuscrita com o nome do irmão dela circulado três vezes.

Adriana leu tudo de pé, sem sentar, e quando terminou tinha as mãos frias.

Ele chegou às onze. Ela estava na cozinha com a pasta aberta na bancada.

"Você casou comigo por isso."

Ivo olhou a pasta e não tentou nada.

"Casei."

"Fala inteiro."

"Meu irmão não morreu numa briga de oficina. Ele foi entregue." Ivo pôs as chaves na bancada, devagar. "Alguém avisou onde ele ia estar às três da tarde de uma terça. Só quatro pessoas sabiam, e três estavam comigo na hora. A quarta era o Rodrigo."

"E você precisava entrar na minha família para provar."

"Eu precisava entrar na sua família para provar."

Ela fechou a pasta com as duas mãos. "E eu era a porta."

"Você era a porta." Ele não desviou o olhar. "Em fevereiro. Em julho você deixou de ser."

"Isso é o que se diz."

"É o que eu digo, e é a única coisa que eu tenho para te dar." A voz dele não subiu em nenhum momento, e foi isso que a machucou de verdade. "Adriana, se eu quisesse só a pasta, eu tinha entregado em maio. Eu tenho isso pronto há quatro meses. Eu não entreguei porque no dia em que eu entregar, seu pai perde o porto, seu irmão vai preso ou morre, e você vai olhar para mim todo dia pelo resto da vida sabendo que fui eu."

Ela ficou em silêncio, ouvindo o freezer ligar e desligar.

"Me dá uma noite", ela disse.

"Toma."

Ela dormiu no primeiro quarto, o mais perto da escada, e não dormiu nada.

Capítulo Cinco

Rodrigo tentou resolver antes dela.

Foi num sábado, no estacionamento do escritório, e ele levou dois homens que nunca tinham feito aquilo direito na vida. Ivo saiu com um tiro no ombro esquerdo e uma costela quebrada. Um dos dois homens não saiu.

Adriana chegou no hospital às três da manhã com a pasta debaixo do braço e o cabelo preso com o mesmo lápis. Entrou no quarto, olhou o soro, olhou a atadura, e pôs a pasta em cima das pernas dele.

"Entrega", ela disse.

"Você entende o que acontece."

"Eu passei a semana inteira entendendo." Ela puxou a cadeira e sentou. "Meu pai vendeu o Antares com creche no projeto e entregou sem creche. Meu irmão mandou matar o seu na frente de uma oficina. Eu fui a única coisa da família que ninguém consultou, e agora eu estou consultando."

Ivo pôs a mão sobre a dela. Estava quente demais, de febre.

"Vai doer muito mais do que você imagina."

"Vai." Ela apertou os dedos dele. "Mas eu quero ser a pessoa que decidiu, e não a pessoa que descobriu depois."

A denúncia saiu em novembro. O pai dela fez acordo e pegou regime domiciliar por causa da idade e do coração. Rodrigo fugiu para o Paraguai em dezembro e foi preso em março numa rodoviária de Ponta Porã, tentando comprar passagem com o documento do primo.

Adriana perdeu a construtora, perdeu duas amigas de infância, perdeu o telefone da mãe por catorze meses.

Ficou com o resto.

Em julho do ano seguinte, os dois estavam num apartamento alugado em Curitiba, longe do mar, com uma mesa grande demais para a sala. Ela desenhava um conjunto habitacional de sessenta unidades para uma prefeitura pequena, e ele lia o edital com uma caneta na mão, marcando o que era exigência e o que era enfeite.

"Aqui não passa caminhão", ele disse.

Ela puxou a folha, olhou, riu, e apagou a esquina inteira.

Sobre esta história

O que tinha exatamente na pasta que Adriana encontrou?

Doze notas fiscais de carga que nunca saiu do pátio, quatro extratos de uma conta em nome de uma empresa de fachada aberta no nome de um antigo motorista, e uma folha em que Ivo tinha reconstruído hora a hora a terça-feira em que o irmão morreu. O nome de Rodrigo aparece circulado porque foi ele quem remarcou a reunião da oficina, por telefone, quarenta minutos antes.

Por que Ivo esperou quatro meses para entregar, se tinha tudo pronto em maio?

Porque em maio ele ainda achava que ia entregar, sair do país e nunca mais ver Adriana. Em junho ela começou a montar as maquetes na mesa de jantar e a falar com ele durante o jantar inteiro. Em julho ele guardou a pasta na segunda gaveta, que é a gaveta das coisas que a gente adia. Foi a primeira vez na vida dele que adiar não foi estratégia.

O pai dela sabia da morte do irmão de Ivo antes do casamento?

Soube dois dias depois, quando Rodrigo contou de madrugada, chorando, achando que o pai ia protegê-lo. O pai protegeu. Foi ele quem propôs o casamento como forma de encerrar o assunto, e nunca contou à mulher nem à filha. Isso é o que Adriana ainda não perdoou, mais do que o resto.

Adriana voltou a falar com a mãe?

Depois de catorze meses, sim. A mãe ligou num domingo de manhã, falou dezoito minutos sobre uma reforma no banheiro e desligou sem mencionar nada do que aconteceu. As duas seguem assim, com uma conversa por mês sobre azulejo e pressão arterial. Adriana atende sempre.

Ivo saiu mesmo do crime ou só mudou de cidade?

Saiu da carga e do porto, que era o que dava dinheiro e matava gente. Ficou com duas oficinas de caminhão em Curitiba, registradas, que dão pouco e dão trabalho. Ele ainda conhece gente que atende o telefone às quatro da manhã, e usa isso duas vezes por ano, sempre para saber onde Rodrigo está e nunca para fazer nada a respeito.

Esta história contém temas sensíveis (dark romance). Personagens e situações são fictícios; qualquer dinâmica retratada não é uma recomendação para a vida real.