A Proximidade Inaceitável

Ele se inclinou para explicar algo no ouvido dela, mas a respiração quente contra sua pele roubou qualquer racionalidade. Ela sabia que deveria se afastar. Não se moveu. Cada palavra dele parecia dissolver as defesas que ela construiu nos últimos meses, cada sílaba carregada de intenções que não precisavam ser ditas.

— Aqui está — murmurou, e o tom era tão baixo que só ela podia ouvir.

Ela sentiu o calor dele subir pelo braço, e uma corrente elétrica percorreu sua espinha. Um arrepio que não tinha nada a ver com frio. Quase podia sentir o perfume dele misturado ao ar, doce, intenso, perigoso. Tentou se lembrar de tudo o que sabia: que aquilo não era correto, que qualquer movimento em falso poderia trazer consequências, que ela não podia se permitir… mas não conseguia pensar direito. O corpo dela traía a mente.

Ele recuou um pouco, mas o espaço entre eles continuava pequeno demais. Um detalhe mínimo para qualquer outro, mas suficiente para que a tensão parecesse prestes a explodir. Ela queria olhar para outro lado, respirar fundo, quebrar aquela proximidade que queimava o ar. Mas o olhar dele… o olhar dele a paralisava. Um mergulho profundo, carregado de memórias e promessas não cumpridas, de dias em que ambos fingiram que nada sentiam.

— Você sempre me entende — disse ele, desviando a voz, mas mantendo a mão próxima à dela. Um gesto quase involuntário, mas cheio de significado.

Ela engoliu seco, consciente da atração que crescia como uma chama contida. Não era só desejo — era urgência, era reconhecimento, era o tipo de conexão que se sente com a alma antes mesmo de tocar a pele.

O problema era que havia barreiras. Barreiras que ela não podia ignorar. Segredos do passado, decisões mal resolvidas, promessas quebradas… e uma linha tênue entre o que era seguro e o que era impossível. Cada razão para se afastar apenas aumentava o ímpeto de permanecer ali, tão perto que o ar entre eles parecia carregado de eletricidade.

Ele deu mais um passo. Só um. Mas suficiente para que ela sentisse o calor dele misturar-se ao dela, e por um instante, o mundo inteiro desapareceu. Um instante em que os riscos pareciam pequenos demais para serem notados.

— Eu não devia estar aqui — ela murmurou, quase inaudível, e ele inclinou o rosto, mantendo a distância, mas aproximando a respiração.

— Talvez você precise aprender que nem tudo pode ser evitado — respondeu, num sussurro que soou como um convite perigoso.

O coração dela disparou. Ela sabia que qualquer movimento errado poderia transformar aquela tensão em algo impossível de controlar. Mas não se afastou. Não queria.

Ele tocou sua mão por um segundo, leve, quase como um acidente. Mas o toque foi suficiente. Suficiente para que os corpos tremessem de forma quase imperceptível, para que o silêncio carregado entre eles falasse mais do que qualquer palavra.

— Eu sinto… — começou ela, mas parou. A verdade era crua demais para ser dita em voz alta.

Ele inclinou a cabeça, aproximando a testa da dela. O cheiro, o calor, a proximidade… tudo conspirava contra a razão. O tempo parecia ter parado. O toque era suave, reverente, como se segurasse não só a mão dela, mas cada hesitação, cada medo.

— Não diga — disse ele. — Só sinta.

E foi suficiente. Clara fechou os olhos, deixando o medo e a razão escorrerem. Ficou ali, naquele quase, naquele toque, naquela promessa silenciosa. Um começo, talvez. Uma continuação que ainda não podia ser nomeada, mas que queimava o ar com intensidade.

Quando abriram os olhos, ainda estavam perto demais para o conforto, mas perto de si mesmos como nunca estiveram. O que quer que viesse depois, eles sabiam: não seria fácil. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não importava.

O ar continuava carregado. A proximidade era inaceitável. E, ainda assim, ninguém se afastou.

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